SAMU: como funciona o atendimento de urgência e o que fazer ao ligar 192
O SAMU é o serviço que chega primeiro quando uma vida está em risco — e, mesmo assim, muita gente não sabe como funciona a central de regulação nem quando acionar o 192. Para esclarecer o tema, o programa Saúde em Dia recebeu o diretor do SAMU, Dr. Vitor Arimatéia, que falou sobre o atendimento de urgência e emergência, o trabalho das equipes e os desafios de quem atua na linha de frente.
Quando ligar para 192
A regra é simples: ligue para o 192 sempre que passar por uma situação de urgência ou emergência — ou em caso de dúvida dentro desse contexto. Mesmo que não haja necessidade de encaminhar uma ambulância, o médico regulador tem conhecimento e expertise para dar a melhor orientação.
O que o médico faz, na prática, é uma análise de risco. A ligação pode ser a pior experiência da vida de quem chama — e, do outro lado da linha, há profissionais preparados para acolher e orientar.
O que acontece quando você liga para o SAMU
O primeiro contato é feito pelo auxiliar de regulação médica — muitas vezes confundido com telefonista. A função dele é identificar onde você se encontra, o endereço, e entender o contexto da situação: acidente automobilístico, parada cardiorrespiratória ou trauma. É um atendimento rápido, e as informações são transferidas para o médico regulador.
Para ajudar, é essencial manter a calma e responder a todas as perguntas — seja do auxiliar, seja do médico, que segue um protocolo. Quem está nervoso precisa saber o que vai encontrar do outro lado da linha: um processo estruturado para salvar vidas.
O médico regulador: o centro da logística de emergência
O médico regulador é a figura central do sistema. Ele não só atende o solicitante e dá orientações, como identifica qual é o melhor recurso para chegar até a vítima. A equipe que chega ao local são “os olhos e as mãos” dele: exercem os protocolos e fazem uma segunda regulação, em contato direto com o médico.
Uma das telas do regulador mostra, em tempo real, a realidade de todas as portas do SUS de Brasília: qual unidade é a mais próxima, qual está contingenciada, qual tem centro cirúrgico bloqueado. Ele faz a gestão do fluxo de pacientes na rede — um jogo altamente complexo, em que às vezes o hospital tem vaga e estrutura, mas não tem o cirurgião necessário.
Trauma: a hora de ouro e a importância da prevenção
O trauma ocupa cerca de 20 a 25% das demandas do SAMU no Distrito Federal e atinge principalmente a população adulta jovem. Na urgência, fala-se na “hora de ouro”: é preciso chegar muito rápido até a vítima.
Mas o que mais chama atenção do diretor é a irresponsabilidade que gera morte — situações que, ao olhar para trás, “podiam ter sido evitadas”. Por isso o Maio Amarelo é comemorado todos os anos, em parceria com o Detran-DF, para divulgar medidas de prevenção de acidentes.
O exemplo mais claro é o afogamento: estatisticamente, investir na prevenção traz muito mais resultado do que tentar chegar rápido até a vítima — porque, no trauma grave, muitas vezes já não há muito a fazer quando a equipe chega.
Motos do SAMU: velocidade no trânsito
As motos do SAMU foram criadas de forma estratégica por causa do trânsito: elas adiantam o socorro até a chegada da viatura e melhoram o tempo de resposta — o principal indicador de qualquer serviço de atendimento móvel de urgência.
No DF, as motos atuam de segunda a sexta, sem final de semana e sem plantão noturno, justamente pelo trânsito. Elas andam sempre em duplas, com equipamentos complementares nos baús: uma pode atender uma ocorrência menos grave, enquanto a outra chega preparada até para uma parada cardiorrespiratória, com desfibrilador e medicamentos.
O princípio é claro: em uma parada cardíaca, tempo é músculo, tempo é vida. O ideal é chegar em até 5 minutos — e as motos conseguem chegar mais rápido que a viatura.
Helicóptero: suporte avançado aéreo
O helicóptero é acionado para acidentes em BR e lugares de difícil acesso, em ocorrências de gravidade nível 1 — severas, de alta complexidade. É uma unidade de suporte avançado aéreo, com equipe federal de piloto e copiloto, tripulante operacional do Corpo de Bombeiros, médico e enfermeiro.
A grande vantagem: voando em linha reta a 150 km/h, chega a qualquer ponto do Distrito Federal em no máximo 15 a 20 minutos. Hoje são dois helicópteros vinculados ao Corpo de Bombeiros, com quem o SAMU mantém uma parceria de cerca de 10 anos — quase metade da escala médica é de médicos do Corpo de Bombeiros, em uma parceria considerada extremamente bem-sucedida.
20 anos de SAMU e os desafios da saúde mental
O SAMU completa 20 anos de existência no Brasil — e o SAMU do DF completa 18 anos. São mais de 40 recursos investidos no DF, incluindo 25 especializados que atuam em parceria com o Corpo de Bombeiros, helicópteros, médicos, enfermeiros, técnicos, protocolos e uma central de regulação robusta, com mais de 900 servidores dedicados a salvar o máximo de vidas possíveis.
Mas há um alerta sério: o profissional do SAMU é o que acumula os maiores quadros de afastamento por saúde mental na Secretaria de Saúde — quase comparável à somatória de todas as outras unidades juntas. Em janeiro deste ano, foi liderada uma campanha de saúde mental com a medicina do trabalho, voltada especificamente ao servidor do SAMU.
Além da carga psicológica, há a carga física: o profissional da linha de frente trabalha no sol e na chuva, com demanda técnica e física ao mesmo tempo. Por isso se fala em um “tempo de validade” para esse profissional — como ocorre nos serviços militares e no Corpo de Bombeiros — e na necessidade de planejar a continuidade da vida profissional depois de 10, 15 ou 20 anos de dedicação.
Desafios de abastecimento e improviso
O improviso pode acontecer. No DF, o abastecimento de insumos e materiais é de alta qualidade, mas há dificuldades pontuais, como a troca de EPIs — macacão, luvas, máscara e coturno são considerados proteção individual. Na pandemia, o SAMU enfrentou alto déficit de ventiladores na rede, contornado em parte com uma doação do Ministério da Saúde.
O recado do diretor
Para quem trabalha na urgência, a sobrevivência passa pela descompressão: quebrar a rotina, preservar os horários de descanso, brincar com os filhos, correr, ouvir música. E para a população, o recado é duplo: ligue 192 em caso de urgência, emergência ou dúvida — e cuide da prevenção, porque o acidente evitado é a vida salva antes de qualquer ambulância sair.


