A obesidade deixou de ser um tema restrito a endocrinologistas e nutrólogos: ela chegou ao consultório do cardiologista. Para explicar esse cenário, o programa Saúde em Dia recebeu o cardiologista Dr. Renault Ribeiro Júnior, que conversou com Mônica sobre os impactos do excesso de peso na saúde, os mitos do emagrecimento e o que realmente funciona para perder peso de forma duradoura.
Por que o cardiologista se importa com a obesidade
A preocupação tem motivo: 80% dos pacientes diabéticos são obesos, e 90% deles já apresentam alguma manifestação de doença aterosclerótica, ouvida cardíaca. Para o especialista, o crescimento do sobrepeso e da obesidade na sociedade é um “tsunami que já estourou” — e as consequências chegam ao coração.
Obesidade é doença, não falta de força de vontade
A obesidade é reconhecida como doença pela Organização Mundial da Saúde. E vai muito além da estética: afeta o sono, a produtividade, a autoestima, a frequência cardíaca, os músculos e até os tendões.
O médico também faz um alerta importante: é preciso parar de enxergar o obeso apenas como alguém que não faz exercício e come em excesso. Fatores emocionais pesam — a chamada fome emocional pode estar ligada a carências e traumas —, assim como hábitos construídos desde a infância, como a cultura da festinha escolar em que todo mundo leva docinho e salgadinho, e ninguém leva fruta.
IMC e circunferência abdominal: como avaliar o risco
A forma mais conhecida de medida é o IMC (Índice de Massa Corporal), calculado dividindo o peso pela altura ao quadrado:
- IMC até 24,9: faixa ideal;
- Entre 25 e 29: sobrepeso;
- 30 ou mais: obesidade.
Outro parâmetro simples e valioso é a circunferência abdominal, medida com fita métrica — que o médico considera um novo “dado vital”, junto da pressão e da frequência cardíaca. A referência é de até 98 cm no homem e, no máximo, 89 a 90 cm na mulher. Isso porque a gordura visceral inflama o fígado, os intestinos e os órgãos — e reflete no coração.
Síndrome metabólica: o efeito dominó no corpo
O paciente impactado pela obesidade é, em geral, um paciente inflamado. A síndrome metabólica reúne alterações como triglicerídeo alto, glicemia alta e pressão arterial elevada. O excesso de triglicerídeos deixa o colesterol mais agressivo, inflama as artérias e forma placas — caminho para infarto, AVC e insuficiência cardíaca e renal.
E quem já tem sobrepeso, mas também é fumante, hipertenso ou tem colesterol alto, já pode ter indicação formal de tratamento com medicamentos — mesmo antes de chegar à obesidade.
Emagrecer não tem atalho: cuidado com as fake news
Receitas milagrosas, como a famosa “sopa de casca de banana”, são fake news. Emagrecer requer esforço e escolhas — e toda escolha pode doer. O segredo está em transformar sacrifício em escolha que beneficia a própria vida.
Vale também desconfiar dos corpos vendidos nas redes sociais: por trás de muitos resultados existe um preço, e o desejo estético não pode se confundir com a necessidade de perder peso por saúde.
Medicamentos para emagrecer: nunca por conta própria
Hoje existe um arsenal de medicamentos bons e úteis — quando bem indicados. O que não pode é chegar à farmácia e pedir “o remédio que a amiga do trabalho está usando”. O médico lembra o caso de uma paciente que usava anfetamina e não dormia, não comia e enjoava.
A pergunta que guia a decisão é simples: você vai tomar essa pílula a vida toda? Dieta da proteína a vida toda, sopa a vida toda — nada disso se sustenta. O caminho é aprender a comer uma comida normal, gostosa e saudável.
Exercício físico: remédio que se prescrive
Estudos mostram que, para perder peso, o exercício sozinho pode não ser suficiente sem restrição alimentar. Mas ele é fundamental para a manutenção e o fortalecimento dos resultados — a ponto de ser prescrito como remédio. Na turma do cardiologista, com alunos de mais de 60, 70 e 80 anos, a diferença de quem se exercita é visível.
Tratamento para o resto da vida: uma jornada, não uma mágica
A obesidade é uma doença crônica — e doença crônica se trata cronicamente, ou seja, para o resto da vida. Isso exige mudança de estilo de vida, de postura e de mindset, com apoio de uma equipe: cardiologista, endocrinologista, nutricionista, psiquiatra e, muitas vezes, ortopedista.
Sem tratamento, a obesidade é “rápida na piora, mas uma morte lenta”: o infarto e o AVC não surgem de um dia para o outro — são o fim de uma história longa que ninguém deveria percorrer. A boa notícia? Dá para comer quase de tudo, até a rabanada do Natal — o que importa é o que e quanto se come.


