Neuropsicologia e cirurgia plástica: por que avaliar a mente antes de operar o corpo
A decisão de fazer uma cirurgia plástica vai muito além da escolha do cirurgião ou do valor do procedimento. Para falar sobre o preparo psicológico nessa jornada, o programa Saúde em Dia recebeu a neuropsicóloga Rafaela Farrapeira, que trabalha com avaliação e análise comportamental, principalmente com pacientes que vão se submeter a cirurgias plásticas.
Neuropsicólogo e psicólogo: qual a diferença
A neuropsicologia é uma especialidade da Psicologia. Para ser neuropsicólogo, é preciso primeiro concluir a faculdade de Psicologia e, depois, se especializar.
O neuropsicólogo realiza avaliações neuropsicológicas. A avaliação cognitiva, por si só, também é feita por outras áreas — o neurologista é um exemplo. Mas a avaliação neuropsicológica, que é algo mais amplo, é feita pelo psicólogo.
O papel da neuropsicóloga na clínica de cirurgia plástica
Diferente do que muitos imaginam, o trabalho não é influenciar a decisão do paciente nem “aplicar uma dose de bom senso” nele. Trata-se de um processo: o paciente precisa se ver, se entender e descobrir o que de fato quer com aquele procedimento.
A psicologia entra nesse aspecto de ouvir, de se ouvir e de se entender. E o efeito pode ser surpreendente: muitas vezes, com a conversa, o paciente se escuta e muda totalmente a decisão. A neuropsicóloga brinca que é “aquela que tira os pacientes do cirurgião plástico” — que tira o dinheiro da clínica.
Mudança de dentro para fora: autoestima antes da cirurgia
Muita gente busca a chamada “reforma por fora” para trazer algo mais relacionado à autoestima. O alerta da especialista é direto: você não vai encontrar melhora se não melhorar por dentro — se não fizer a “faxina da casa”.
A ordem costuma ser invertida: não é arrumar aqui fora para a mudança vir aqui dentro. Essa mudança vem de dentro para fora. Os ajustes externos têm que começar internamente, com mudança de estilo de vida e de hábitos.
O desejo, muitas vezes, é resumido em frases como “quero uma barriga chapada de tanquinho”, “quero peito em pé”, “quero deitar e não quero que os pneus vão para debaixo do braço”, “quero olhar para baixo e me ver por completo”. O processo, porém, é muito mais amplo do que só a cirurgia.
Quanto tempo dura a preparação psicológica antes da cirurgia
Não existe um prazo único. O mínimo é uma sessão, porque há pacientes que já chegam definidos, com a ideia amadurecida, que se conhecem e têm a tomada de decisão assertiva — tem gente que chega hoje e opera daqui a uma semana.
O tempo vai depender do objetivo e das metas até alcançar o resultado esperado. Há quem chegue para fazer cirurgia plástica precisando perder 8 kg: nesse caso, o tempo é o necessário para perder esse peso, com conversas e ajustes contínuos sobre o que é o ideal dele — e o que é autoresponsabilidade, aquilo que ele precisa entregar.
O que refletir antes de tomar a decisão
O ponto-chave, segundo a especialista, é justamente a tomada de decisão — que muitas vezes é simplificada: “quero entrar na moda”, “todo mundo está fazendo harmonização facial, vou fazer”, “todo mundo está explantando, vou explantar”.
A reflexão essencial é: entender o que você de fato quer na sua essência. O propósito do acompanhamento psicológico é simplificar esse processo de decisão — porque não se trata de “o dinheiro está aqui, resolvido”.
Cirurgia plástica é meio, não solução
A síntese da conversa cabe em uma frase que a própria neuropsicóloga deixa como mensagem final: a cirurgia plástica não é a solução — é um meio do processo que você precisa para a mudança que busca.
Ela não é o mais importante: é uma parte do processo e, talvez, a última etapa — depois de amadurecer.


