Joanete, joelhos tortos e ortopedia moderna: o que o ortopedista explica sobre pé e tornozelo
A cirurgia de joanete é um dos temas que mais geram dúvidas — e mitos como “puxar o dedo cura” ainda circulam por aí. Para esclarecer o assunto, o programa Saúde em Dia recebeu o ortopedista Dr. Thiago Coelho, cirurgião de pé e tornozelo e médico ortopédico pediatra, que falou sobre o tratamento atual do joanete, os joelhos tortos na adolescência e os avanços da ortopedia.
Joanete não se cura com “puxar o dedo”
Muitos pacientes chegam ao consultório acreditando que alongamentos, “puxar o dedo” ou as famosas “hortas vizinhas” podem resolver o joanete. O alerta do especialista é direto: isso não cura, não impede e nem atrasa a progressão da deformidade — afinal, não dá para fazer esse movimento 24 horas por dia, todos os dias, a vida inteira.
O joanete é uma deformidade, e a cirurgia é o melhor tratamento para a correção dela. Mas o procedimento mudou muito nas últimas décadas.
A evolução da cirurgia: do corte aberto à técnica percutânea
Antigamente, a cirurgia de joanete só raspava o osso — e o resultado era ruim: o joanete voltava com frequência e o pós-operatório era sofrido, com o paciente um mês sem pisar no chão.
Desde 2016, o Dr. Thiago trouxe para Brasília a cirurgia percutânea minimamente invasiva, na qual foi pioneiro na cidade. A técnica usa pequenos cortes puntiformes e consegue corrigir a deformidade e alinhar completamente o dedo.
A grande vantagem: o paciente anda no dia da cirurgia, usando uma sandália específica, pode subir escada e fazer afazeres dentro de casa — sempre respeitando o repouso indicado no pós-operatório.
Joanete é progressivo: quanto antes tratar, melhor
O joanete não fica parado: ele é progressivo e vai piorando ao longo de anos e décadas, de forma perceptível. Com o tempo, a deformidade aumenta: o dedão (hálux) encosta no segundo dedo e o levanta, chegando àqueles casos de dedo por cima do outro.
Isso causa dor localizada, dor embaixo do pé e muita limitação para os pacientes. Por isso, a orientação é clara: ao notar o joanete, procure acompanhamento médico — quanto antes, melhor, aproveitando as técnicas menos invasivas já disponíveis.
Joelho torto na adolescência: gênero valgo e gênero varo
Outro tema importante da conversa: as pernas “em tesoura”, com joelhos juntos e pés afastados — o gênero valgo — ou o contrário, com pés juntos e joelhos arqueados para fora — o gênero varo.
Na pré-adolescência e adolescência, o problema merece atenção. Na criança menor, o joelho em “X” faz parte da evolução natural: o auge acontece por volta dos 3 anos, e com 7 anos costuma se alinhar sozinho. O problema é quando, a partir dos 8 anos, o joelho não alinha ou começa a entortar cada vez mais.
Sem intervenção, o adolescente pode chegar à vida adulta com o joelho torto, o que aumenta o risco de artrose e de outros problemas ortopédicos.
O tratamento que alinha o joelho “por um furinho”
A boa notícia é que hoje existe uma técnica com resultado impressionante: por um pequeno furinho, o médico introduz um implante que impede o crescimento de um dos lados do joelho, permitindo que o outro lado cresça. Com o próprio crescimento do adolescente, o joelho vai se alinhando naturalmente, acompanhado de perto pelo médico.
As vantagens são grandes: o paciente anda imediatamente depois, não há corte de osso e o alinhamento acontece de forma natural. Para o especialista, só fica com o joelho torto o adolescente cujos pais não têm informação sobre essa possibilidade.
O adolescente “preguiçoso” pode ter um problema ortopédico
O gênero valgo costuma vir associado ao pé plano e arqueado para dentro — uma combinação bem limitante. Esse adolescente tem dificuldade para fazer atividade física, o que pode até evoluir para obesidade.
A dor nem sempre aparece como dor: é uma sensação de cansaço no pé que surge depois de andar pouco — 50 metros, por exemplo. Como o jovem não sabe como é ser de outro jeito, muitas vezes nem reclama. Resultado: o adolescente é rotulado de “preguiçoso” pelos pais, quando na verdade tem uma limitação ortopédica real. O recado vale para as famílias: vale a pena investigar.
Ácido hialurônico: alívio para as artroses
O ácido hialurônico é usado no tratamento das artroses de diversas articulações — começou no joelho e hoje é amplamente utilizado também em tornozelo, subtalar, quadril e ombro.
Não é nada milagroso, mas tem um papel importante: alivia a dor e permite que o paciente que sentia desconforto ganhe tempo e qualidade de vida — podendo, por exemplo, adiar a necessidade de uma prótese para mais à frente.
Fascite plantar e esporão: ortotripsia reduz as cirurgias
Falando em dor no pé, a fascite plantar e o esporão do calcâneo são causas frequentes de dor atrás do calcanhar. Hoje, a ortotripsia (terapia por ondas de choque), junto com a fisioterapia bem feita e protocolos de tratamento conservador, resolve quase todos os casos sem cirurgia.
O que antigamente era operado com frequência hoje praticamente não precisa de operação — um reflexo do avanço tecnológico da ortopedia, que o médico resume como a saída da “era da furadeira” para um mundo altamente tecnológico, com grandes resultados.
O futuro da ortopedia: a biologia
O futuro, segundo o especialista, passa pela biologia: em vez de cirurgias amplas, pequenas injeções que introduzem células e tecidos para estimular a recuperação do próprio corpo. É a direção que a especialidade vem tomando.


