Otorrinolaringologia: sintomas, mitos e sinais de alerta que você não deve ignorar
A otorrinolaringologia cuida de muito mais do que ouvido, nariz e garganta: ela abrange três dos cinco sentidos humanos — audição, olfato e gustação — e vai “de 0 a 80”, como resumiu a médica. Para esclarecer os sintomas mais comuns da especialidade e desfazer mitos, o programa Saúde em Dia recebeu a Dra. Taís Pinheiro, presidente da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia, seção Distrito Federal.
Quais são as principais queixas da otorrino
A especialidade cobre um leque amplo de sintomas, que merecem investigação quando persistem:
- Ouvido: otites, perda de audição, tontura e perda de equilíbrio, zumbido;
- Nariz: rinites, sinusites, perda de olfato e qualquer tipo de obstrução nasal;
- Garganta: dificuldade para engolir, engasgos, entalo, pigarro e sensação de algo preso;
- Voz: rouquidão, dificuldades para falar, alterações de entonação ou de frequência da voz;
- Sono: ronco e apneia do sono.
Pigarro, engasgo e rouquidão: todo sintoma tem uma causa
Um ponto central da conversa: sintomas não são doenças — cada um deles tem algo por trás. O pigarro pode indicar patologia na laringe, secreção nasal escorrendo para trás ou refluxo. Por isso, o primeiro passo é sempre pesquisar a causa.
E mesmo quando a origem é o próprio envelhecimento, há caminhos de melhora. A presbifonia é a mudança natural da voz com a idade — ela fica mais fraca e rouca —, e a presbifagia é a dificuldade de deglutição causada pelo envelhecimento. Nenhum dos dois precisa ser aceito como destino: com tratamento clínico, terapia ou até procedimentos cirúrgicos, é possível melhorar a qualidade de vida.
Deglutição: quando engolir deixa de ser seguro
A laringe é, antes de tudo, um órgão de proteção: ela conduz o alimento e a saliva para o esôfago, impedindo que entrem na traqueia e nos pulmões. Quando essa proteção falha, o alimento “entra pelo lugar errado” — e o risco é real.
Os sinais podem ser silenciosos: uma coceirinha na garganta ao beber água, um pigarro durante as refeições, tosse ao comer ou beber, ou a voz que fica alterada depois de um copo de água. Muita gente acha isso normal — e não é. Esses sinais indicam que o alimento pode estar indo para a via respiratória.
Zumbido no ouvido: sintoma que pede investigação
O zumbido é outro sintoma — e não uma doença em si. Quem convive com um zumbido desesperador, ou percebe sons “amplificados” ao abrir a torneira, precisa procurar auxílio médico para investigar o que está por trás.
E aqui vai um alerta importante: nada de colocar álcool no ouvido. Também não se deve introduzir cotonetes nem objetos flexíveis. O ouvido é autolimpante: a cera produzida sai naturalmente, e a limpeza deve ficar só por fora — secar até onde o dedo alcança, sem introduzir absolutamente nada. Inserir objetos além disso empurra a cera, pode machucar o ouvido e ainda traz risco de perfuração do tímpano.
Obesidade, ronco e apneia do sono
A obesidade, hoje considerada uma doença, também afeta a área da otorrino. Assim como diabetes e pressão alta têm tratamento, o sobrepeso — por alterações metabólicas no corpo todo — leva a uma série de doenças.
Na otorrinolaringologia, o impacto mais preocupante é no ronco e na apneia do sono. O acúmulo de tecido adiposo, inclusive perto da garganta, aumenta a chance de ronco e apneia — e pode piorar quem já tem o quadro. Os sinais de alerta incluem sonolência durante o dia, acordar com sono ou com dor de cabeça, sintomas que muita gente considera normais mas que escondem uma noite de sono de péssima qualidade, às vezes com queda de saturação de oxigênio.
Câncer de laringe e de boca: não é só do fumante
O câncer de laringe e de boca “não está tão longe das pessoas”. A médica relata que hoje já atende pacientes de 30 e poucos anos com lesões na língua e na boca — inclusive agressivas.
O perfil de risco mudou: antes, o principal fator era o tabagismo e o uso de bebida alcoólica. Hoje, o HPV (vírus papiloma humano) é outro fator de risco importante — e o câncer pode acontecer em qualquer idade, mesmo em jovens que não fumam. Quem parou de fumar há 5 anos continua sob fator de risco, e o cigarro segue como principal fator de risco.
Os sintomas de laringe são comuns a várias doenças: alteração na voz, tosse, pigarro, dor ao engolir, desconforto ou entalo para engolir e caroço no pescoço. A regra é clara: sintoma que passa de duas semanas exige investigação — com a videolaringoscopia, exame rápido e sem dor, feito no consultório com uma câmera introduzida pela boca, que visualiza todas as estruturas e identifica a causa.
O recado da especialista
A mensagem final resume a conversa: não se acostume com sintomas. “Ah, eu respiro mal a vida toda”, “sou rouco a vida toda” — nada disso é motivo para aceitar o problema. Encontrada a causa, há tratamento. E atenção especial à audição: se a pessoa sentiu que a audição piorou ou está com o ouvido tampado, não precisa esperar duas semanas — procure imediatamente um especialista, porque a precocidade no tratamento aumenta a chance de cura.


