Medicina nuclear: como a especialidade diagnostica e trata o câncer com precisão
A medicina nuclear ainda gera confusão entre os pacientes — muitos a confundem com a radiologia ou têm medo da palavra “radiação”. Para esclarecer o tema, o programa Saúde em Dia recebeu o médico nuclear Dr. Gustavo Gomes, diretor da Núcleos, em Brasília. Na conversa, ele explicou como a especialidade permite detectar tumores de forma precoce e até tratá-los com precisão milimétrica.
O que é medicina nuclear
A medicina nuclear é uma especialidade diagnóstica e terapêutica que se caracteriza pelo uso da radiação do núcleo do átomo. Por meio dessa radiação, é possível realizar exames de diagnóstico por imagem e também tratamentos específicos, principalmente para alguns tipos de câncer.
Ela não é radiologia: são especialidades próprias, que trabalham em parceria. Enquanto a radiologia fornece o arcabouço anatômico — tomografia e ressonância —, a medicina nuclear entrega imagens funcionais e metabólicas, capazes de enxergar alterações no nível molecular, antes mesmo de qualquer mudança estrutural no órgão.
Diagnóstico precoce: enxergar o que a radiologia ainda não vê
É aí que mora a grande vantagem. A alteração anatômica que a radiologia detecta costuma aparecer em estágios mais avançados da doença. A medicina nuclear, por sua vez, identifica captações e expressões de moléculas incipientes — quando ainda não houve alteração estrutural no tecido —, permitindo um diagnóstico muito precoce.
Hoje, os chamados métodos híbridos unem as duas visões: o SPECT-CT, o PET-CT e o PET-RM combinam a imagem nuclear com a tomografia ou a ressonância.
A precisão vai além do câncer. Na neurologia, um PET com traçador marcado com carbono 11 consegue identificar proteínas no córtex cerebral que predizem o desenvolvimento do Alzheimer — um exame de potencial prognóstico real.
Câncer de próstata: o PET-PSMA e a importância do toque
No contexto do Novembro Azul, o especialista destacou os avanços no câncer de próstata. E começou com um alerta: o toque retal é imprescindível. Não existe método laboratorial ou de imagem que permita abrir mão dele — chamar isso de preconceito é subestimar um exame fundamental.
Na medicina nuclear, a grande novidade é o PET-PSMA. Assim como o PSA sérico é o exame de sangue do câncer de próstata, o PSMA é uma molécula da membrana da célula cancerígena que tem sua expressão aumentada na região do tumor. O exame usa um traçador que detecta exatamente esse aumento.
Na prática, o PET-PSMA funciona como uma lente de nitidez sobre uma foto embaçada: estudos mostram que ele consegue identificar sítios além da ressonância, direcionar a biópsia de forma mais precoce e precisa — a biópsia continua sendo a palavra final — e tirar dúvidas quando a ressonância é inconclusiva. São métodos complementares, não concorrentes.
Estadiamento: mapear o corpo inteiro
A medicina nuclear também tem papel definido no estadiamento dos pacientes com câncer de próstata, principalmente os de alto risco — aqueles com Gleason maior ou PSA elevado no diagnóstico.
O Gleason é um escore que indica, de forma simplificada, o quão agressivo é o tumor: quanto menor, melhor tende a ser o desfecho do paciente. Com o exame, é possível estadiar o corpo inteiro e planejar o tratamento com mais segurança.
Recidiva bioquímica: localizar o câncer que voltou
Outro papel importante surge quando o paciente já fez o tratamento inicial — cirurgia ou radioterapia — e o PSA começa a subir. Tomografia, ressonância e até a cintilografia óssea muitas vezes não localizam precocemente onde o câncer reapareceu: no leito prostático, nos linfonodos ou nos ossos.
Chama-se recidiva bioquímica: a doença aparece no sangue, mas ninguém sabe onde ela está. O PET-PSMA funciona como um geolocalizador — encontra o sítio da doença e abre caminho para o tratamento.
Terapia com lutécio-177: radioterapia molecular
Aqui está o potencial terapêutico. A mesma molécula PSMA que serve para o diagnóstico pode ser marcada de formas diferentes:
- Com emissor de pósitron (flúor ou gálio), para fazer a imagem;
- Com lutécio-177 (radiação beta) ou actínio-225 (radiação alfa), para tratar.
Fixada no sítio da doença, a molécula marcada exerce um efeito terapêutico local — uma espécie de radioterapia molecular, altamente dirigida e específica para o órgão, com pouquíssimos efeitos colaterais e grandes resultados.
Mito da radiação: alvo certo, nada em volta é estragado
O medo da radiação é comum — histórias de que ela “demora 10 anos para sair do corpo” circulam há tempos. O médico explica: a radiação tem potencial nocivo grande quando é desnecessária ou difusa, aplicada ao corpo inteiro sem propósito.
Na medicina nuclear, acontece o oposto: um radionuclídeo é ligado a uma molécula que se fixa especificamente no alvo. Na tireoide, por exemplo, usa-se o iodo, que participa do metabolismo da glândula e destrói remanescentes de câncer ou metástases. A radiação pode ser alta — mas só onde precisa ser, destruindo o que tem que ser destruído. Nada em volta é estragado.
Recado do especialista
O conselho final do Dr. Gustavo vale para todos os pacientes: sempre que um exame de medicina nuclear for recomendado — pelo urologista, clínico ou cirurgião —, lembre-se de que ele tem grande potencial diagnóstico e pode trazer grandes benefícios. E, em caso de dúvida, pergunte ao seu médico se algum exame da medicina nuclear poderia ajudar no seu diagnóstico.


